ORIGEM E EVOLUÇÃO DE CAPA E BATINA O Traje Académico tem origem nas velhas lobas (batinas) eclesiásticas e sempre foi composto por capa e batina. Tal facto vem confirmar a influência que a Igreja sempre teve no ensino. É preciso não esquecer que até ao século XVIII, quem detinha o monopólio do ensino era o clero, nomeadamente a Companhia de Jesus. Só com a laicização do Estado é que esse monopólio começa a desmoronar-se. Apesar de actualmente se apresentar uniformizado, nem sempre o Traje Académico foi como o conhecemos hoje. Os antigos estautos da Universidade de Coimbra não ordenavam o uso de um uniforme académico. Contudo, proíbiam o uso de certas cores e condicionavam o leque de escolhas em relação ao corte.
Dos estatutos de D. Manuel: «Não poderão os sobreditos nem outros alguns estudantes trazer barras nem debruns de pano em vestido algum; nem isso mesmo poderão trazer vestido algum de pano frizado; nem poderão trazer barretes de outra feição senão redondos; e assim hei por bem que os pelotes e aljubetes que houverem de trazer sejam de comprido três dedos abaixo do joelho ao menos; e assim não poderão trazer capas algumas de capelo, somente poderão trazer lobas abertas ou cerradas ou mantéus sem capelo; não trarão golpes nem entretalhos nas calças nem trarão lavor branco nem de cor alguma em camisas nem lenços.» (inQVID PRAXIS? (PORTVCALENSIS), Cabral, Manuel e Marrana, Rui; Porto, 1982, AEUCP) Em 1645, D. João IV confirmou os estatutos que a Universidade tinha dispunha, elaborados em 1598, conhecidos pelos Velhos ou pelos Oitavos e que vigoravam em pleno até 1772, altura em que ocorreu a reforma Pombalina.
«(...) os estudantes devem andar honestamente vestidos, sem seda alguma, mas poderão trazer os chapéus e barretes forrados e colares de mantéus e guarnições de sotainas por dentro e nas camisas não trarão abanos senão colares chaos sem feitios de rendas, nem bicos, nem trancinhas, nem outras guarnições semelhantes... E não trarão em nenhum vestido de sotaina, calças ou pelotas, as cores aqui declaradas: amarelo, vermelho, encarnado, verde, laranjado...; e, porém, debaixo das sotainas poderão trazer gibões ou jaquetas de panos de cor para sua saúde, contando que os colares não sejam mais altos que os das sotainas, nem as mangas mais compridas; e poderão debaixo das botas ou borzeguins, trazer meias calças de cores bem cobertas; não poderão trazer barretes de outra feição senão redondos ou de cantos, nem carapuças, senão os que trouxerem dó... e os mantéus que houverem de trazer, serão compridos, ao menos até ao artelho... não trarão golpes nem entretalhos que se vejam em alguns vestidos, nem piques, golpes, botões ou fitas em botas ou sapatos...» (in Tempos Idos; Castro, Luís Cyrne de; Ed. do autor; Braga, 1974)
Descrição dum professor alemão, ao visitar Coimbra em finais do séc. XVIII: «Todos os estudantes, e mesmo os professores, têm um trajo muito singular. É um hábito comprido, de pano preto, sem mangas, atado atrás com cordões e guarnecido na frente com duas ordens de botões bem juntos, que começam no pescoço e descem até aos pés; eis a primeira parte do vestido. Por cima deste usa-se um outro vestido preto e comprido, com mangas largas, precisamente como as dos pastores protestantes. Cada um trás na mão um pequeno saco de pano preto onde, à falta de algibeiras, se acham o lenço, a caixa de rapé e outros objectos semelhantes. Os estudantes vão sempre com a cabeça descoberta, mesmo durante os maiores calores de Verão.»
(in Subsídios para o Estudo do Trajo dos Estudantes de Coimbra (Revista Rua Larga, n.º 2); Correia, António; Coimbra, 1 de Julho de 1957) É no século XIX que o Traje Académico vai sofrer maiores alterações.
No início desse século, os atentados ao Traje eram tão exagerados que o próprio Reitor resolveu impor-se. Atingiram os estudantes o ponto de serem «proibidos de trajarem bigodes e outros atavios impróprios da gravidade académica, chegando ao excesso de cigarrarem e entrarem cobertos nas gerais e até nas aulas da Universidade». Comparando os textos que se seguem, é possível verificar que em aproximadamente 100 anos a batina (sucessora da antiga loba) sobe do artelho (tornozelo) até ao joelho.
Descrição do Traje por Antão de Vasconcelos, formado em 1865: «O vestuário é a capa e batina; a capa até ao tornozelo, com gola militar; batina curta até ao joelho, dois dedos abaixo; calção, meia preta de laia, sapato e volta em vez de gravata, como o padre. No Inverno, no meu tempo, como se desenvolvesse uma formidável epidemia de bexigas e tifo, era permitido andar de calça preta, caída, em vez de meia preta e calção. Este uniforme, de incomparável comodidade, dá para uma formatura e sobra, tanto mais que, a capa velha e rota é respeitada e respeitável; é o emblema do veterano. Anda-se em cabelo, apesar de fazer parte do uniforme o gorro, saco preto, que posto na cabeça cai pelas costas. Empregavam-no em carregar livros, frutas e outros místeres. Andar em cabelo e muito bem calçado era o grande luxo. A capa tem almares para abotoar. Usa-se de muitas maneiras e, bem traçada, torna-se um trajo muito elegante. Além de decorativa é um magnífico cobertor. Com a volta usa-se colarinho.»
Descrição de Trindade Coelho, formado em 1885: «O gorro era já raro pelas costas abaixo, ou caindo em cima da orelha. A maior parte andava em cabelo; algum trazia um pequeno boné preto como os de viagem, e as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam ao meio das canelas, mas umas batininhas que só chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado que outra coisa) - e a respeito da meia preta e volta de padre, só nos actos e a volta às vezes era de papel e as meias de algum teólogo» (in In Illo Tempore; Coelho, Trindade; Publicações Europa-América, Livros de Bolso, n.º 287)
Nos finais do século XIX, as modificações ainda foram maiores. O Traje afasta-se cada vez mais das primitivas loba e baeta e aproxima-se a passos largos daquilo que conhecemos hoje como Traje Académico. A principal alteração terá sido a escolha definitiva da calça comprida.
Descrição de Ramalho Ortigão, em 1888: «O grave uniforme decompôs-se pelo modo mais irreverentemente pelintra. O capelo e a volta foram substituídos pelo colarinho postiço e pela gravata do futriquíssimo liró. A batina degenerou num casaco gebo e mestiço, de padre à paisana. A calça escorreu, inartística e bêsta, pela perna abaixo, esbaiçando a polainada sobre a odiosa bota de elástico. Assim o belo costume histórico da antiga Universidade se perverteu sem se reformar, reduzindo-o a uma aproximação cenográfica de entremez barato ou de zarzuela pobre.» (in Subsídios para o Estudo do Trajo dos Estudantes de Coimbra (Revista Rua Larga, n.º 2); Correia, António; Coimbra, 1 de Julho de 1957) Em meados do século XX, o Traje adquire já feições muito aproximadas às de agora.
«No meu tempo, já esse uniforme não tinha feição eclesiástica, com excepção da cor. Na verdade, a capa era um agasalho de feito igual a outros e a batina era aberta, com bandas de seda, permitindo camisa com colarinhos e gravata ou camisola, usando-se normalmente desabotoada, com poucos botões, com bolsos e comprimento um pouco abaixo do joelho, assemelhando-se mais a uma sobrecasaca do que a uma batina sacerdotal.» (in Tempos Idos; Castro, Luís Cyrne de; Ed. do autor; Braga, 1974)
É com a publicação do primeiro Código da Praxe Académica, apresentado por Mário Saraiva de Andrade e Victor Dias Barros, em 1957, que o Traje passa a ter a sua entidade uniformizada. Mais tarde, seria a vez do Porto criar o seu Código da Praxe Académica, apresentado em 1983 por José António Balau e Augusto Henrique Soromenho. Este documento continua a ser um projecto. Em 1993, Pedro Cabral procede a uma revisão do Código da Praxe Académica de Coimbra e acrescenta-lhe uma introdução com textos explicativos acerca das tradições coimbrãs.
PARA OS HOMENS deve ser constituído por:- sapatos pretos lisos, sem fivelas nem adornos metálicos, com cordões em número ímpar; - meias pretas; - calça preta lisa com ou sem porta; - colete preto não de abas ou cerimónia; - batina que não seja de modelo eclesiástico; - camisa branca e lisa, com colarinho de modelo comum, gomado ou não, e com ou sem punhos; - gravata preta e lisa; - capa preta, com ou sem cortes na parte inferior e com ou sem distintivos na parte interior.
O colete e a Batina deverão ter um número de botões pregados correspondente ao número de casas.
A Batina deve ter pregados, na parte média posterior, dois botões de tamanho maior e apresentar em cada uma das mangas de uma quatro botões, mas de modo a que o número destes seja o mesmo num e noutro punho. Na falta do colete, a batina deve apresentar-se abotoada; O bolso posterior da calça, tendo casa, tem de ter botão; O laço pode usar-se com o traje em ocasiões solenes; O uso de lenço visível no bolso superior esquerdo não é incompatível com o uso da Capa e Batina, desde que seja branco; O uso do gorro da praxe é facultativo, mas este não pode ter borla nem terminar em bico; É proibido o uso de botins ou botas altas;
PARA AS MULHERES deve ser constituído por:- sapato preto, de modelo simples, com tacão pequeno; - meia alta, preta; - fato saia e casaco, preto e de modelo simples; - o casaco não pode ter golas de seda ou pele; - a saia não pode ser rodada e deve usar-se pelo meio do joelho; - camisa branca; - gravata preta lisa; - capa preta. - o uso do gorro da praxe é proibido às mulheres; - é proibido o uso de maquilhagem; - não havendo proibição formal acerca do uso de brincos, aconselha-se sejam discretos, clássicos e não sejam pendentes;
PARA AMBOS a) Em tempos normais É proibido o uso de luvas, pulseiras, colares, anéis e outros adornos ou sinais externos de vaidade ou riqueza. É permitido, contudo, o uso de aliança de casamento ou de compromisso.
Não é proibido o uso de relógio de pulso, mas este tem de ser clássico, discreto e sem brilhos. É proibido o uso de telemóvel visível. Quem não quiser prescindir dele deve guardá-lo num dos bolsos, por exemplo. É proibido o uso de boina. Só é permitido o uso de guarda-chuva se este for preto, liso, com cabo de madeira e possuir doze varas.
Os pins não são proibidos, ou pelo menos não existe nenhuma proibição formal quanto ao seu uso, mas devem usar-se na lapela esquerda. De forma a evitar as inestéticas «vitrinas», aconselha-se fortemente o uso de um único pin: o da instituição ou o do curso, por exemplo.
A roupa interior e os bolsos não estão sujeitos a revista.
Devem retirar-se todas as etiquetas do traje. Devem retirar-se os colchetes e todo e qualquer tipo de abotoadura da capa.
A Capa nunca se lava. Lavá-la é apagar e renunciar todas as recordações da vida de estudante. Além disso, “dá azar”, dizem os supersticiosos.
A Capa não se deve encontrar a uma distância superior a sete passos do seu proprietário.
A Capa pode usar-se dobrada sobre o ombro esquerdo com a gola para trás ou sobre os ombros, com um número de dobras na gola correspondente ao ano frequentado e com os distintivos virados para dentro.
Os caloiros devem usar a Capa dobrada no braço esquerdo, sendo-lhes vedado traçá-la, fazer-lhe rasgões ou colocar-lhe emblemas e/ou insígnias pessoais. Contudo, após o cair da noite, devem colocá-la sobre os ombros e segurá-la junto ao colarinho de modo a que não se veja o branco da camisa.
Podem colocar-se emblemas e insígnias pessoais na Capa na parte interior esquerda. Estes devem ser cosidos manualmente com linha preta em ponto cruz e esta não deve passar para o lado exterior da capa. Não se espeta metal na Capa.
A soma dos emblemas da Capa tem de ser ímpar. Os distintivos da Capa não podem ser visíveis estando esta traçada ou sobre os ombros. Podem fazer-se rasgões na capa, cada um simbolizando um momento importante da vida do estudante. Todos os rasgões devem ser feitos com os dentes. Coser os rasgões é facultativo, mas deve fazer-se com linha preta ou da cor do curso, em ponto cruz. A Capa traça-se sempre sobre o ombro esquerdo. O uso do traje académico implica o respeito e cumprimento de certas regras. Deste modo, a Capa deve usar-se caída pelos ombros e sem dobras nas aulas teóricas em que o professor é catedrático (podendo retirá-la com a autorização do professor), em sinal de respeito pela pessoa com quem se está a falar ou a acompanhar, e em sinal de respeito pelo local onde se está (igreja, catedral, cerimónia académica, etc.) Nestas ocasiões, a Batina deverá encontrar-se sempre abotoada.
Por vezes, quando se pretende homenagear alguém, coloca-se-lhe uma capa caída pelos ombros. Só em ocasiões muito especiais é que se colocam as capas estendidas no chão para que o homenageado possa passar por cima delas. Esta é a maior homenagem académica que se pode fazer a alguém. b) Em cerimónias especiais Deve usar-se a Batina abotoada e a Capa estendida ao longo do corpo, com as respectivas dobras. Em situação de dança, e por uma questão de mera comodidade, poder-se-á dançar sem Capa, se a dama assim o permitir. c) Na missa Deve usar-se a Batina abotoada e a Capa estendida ao longo do corpo, sem dobras. Nunca se traça a Capa durante uma cerimónia religiosa. d) Durante o luto Em caso de luto, a Batina deve apresentar as abas fechadas, encontrando-se a Capa caída pelos ombros, sem dobras. e) No fado e nas serenatas Todos os estudantes presentes devem ter as capas traçadas, evitando que se veja o branco do colarinho e dos punhos. Nas serenatas nunca se batem palmas. Caloiro não traça a Capa, mas deve-a unir e apertar junto ao pescoço, segurando-a de modo a que não se veja o branco do colarinho. f) Nos Cortejos da Queima das Fitas Os Cartolados devem cobrir as lapelas da Batina com bandas de cetim da cor do curso a que pertencem. As abas devem ser arredondadas, dobrando e cosendo as duas pontas inferiores, dando um aspecto de fraque. A cartola e o laço ou a roseta, no caso das mulheres, devem ser da(s) cor(es) do(s) curso(s). A roseta usa-se no bolso exterior esquerdo superior do casaco. Não se leva a Capa estando de cartola e bengala. Estas regras relativas ao uso do Traje Académico foram retiradas, na maioria, de documentos escritos, mas algumas foram compiladas a partir da tradição oral. Assim, um grupo muitíssimo reduzido destas regras podem variar de instituição para instituição.
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